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Copa do Mundo 2010 - Um raio-x das Eliminatórias (Américas)
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Por Victorino Netto

Fique por dentro de tudo o que acontece no cenário futebolístico mundial sob a ótica crítica e informativa do jornalista assisense Victorino Netto.
 
Copa do Mundo 2010 - Um raio-x das Eliminatórias (Américas) | 10/10/2009 - 13:10

Os próximos dias serão decisivos para a definição das nações que complementarão o quadro de participantes da próxima Copa do Mundo. Além do país sede, apenas Austrália, Japão, Holanda, Gana, Inglaterra, Espanha, Paraguai, ambas as Coréias (do Sul e do Norte) e o Brasil já estão garantidos na disputa. Das 21 vagas restantes, pelo menos 15 serão conhecidas nessa rodada, restando posteriormente apenas o desespero das repescagens... Vale à pena revisar o que foi apresentado até aqui para traçar um panorama consciente sobre as possibilidades de cada nação postulante a um lugar ao sol na África do Sul em 2010: 

América do Sul (CONMEBOL):

Os sul-americanos conheceram nas últimas rodadas dois de seus representantes na próxima Copa, quando Brasil e Paraguai asseguraram sua classificação de forma antecipada. Restam agora mais duas vagas diretas, além de uma terceira indireta (decidida na repescagem contra o 4º colocado da CONCACAF), que será disputada por seis equipes. Recentemente campeões da Copa das Confederações e já garantidos no mundial da África do Sul, os brasileiros chegam aos dois últimos jogos na ponta da tabela (além de possuir o melhor ataque e a melhor defesa da competição), uma situação totalmente diferente da pressão que sofreram durante todas essas eliminatórias. Tanto que os desfalques no miolo de zaga (Lúcio e Juan estão contundidos) não preocupam e o contestado Dunga deve aproveitar o silêncio dos críticos para poupar jogadores (como Gilberto Silva, Kaká, Elano e Luis Fabiano) e fazer alguns testes. Não é segredo para ninguém que ainda falta um substituto a altura de Júlio César (Hélton ganhou mais uma chance já que Vitor está machucado); opções na lateral-esquerda (Filipe vai finalmente ter uma oportunidade?) e no meio (Diego Souza ou Aléx precisam mostrar se têm ou não condições de garantir um lugar no grupo); além de suplentes para o ataque (Nilmar já está encaminhado, mas Adriano ainda não mostrou todo seu potencial). E o jogo na altitude de La Paz é uma boa oportunidade para se obter respostas, além de evitar possíveis críticas em caso de um resultado negativo diante de uma Bolívia já eliminada e que por pouco não ficou sem atletas para atuar graças a uma greve do sindicato de jogadores bolivianos (Fabol), que cobra mudanças no futebol local.

Consciente dessa realidade, o Paraguai está confiante em fazer sua parte e quem sabe tomar de volta dos brasileiros a liderança da tabela, que ocupou durante boa parte da competição. Treinados pelo argentino Gerardo Martino, os guaranis se destacam pelo poder ofensivo, que conta com bons nomes como Cabañas (que atua no América do México), Nelson Haedo Valdez (Borussia Dortmund), Oscar Cardozo (Benfica) ou então Roque Santa Cruz (que recentemente se transferiu para o Manchester City, mas tem sofrido com as contusões, tanto que ficou de fora da convocação). Outros problemas para La Albirroja (que encara venezuelanos e colombianos) são os desfalques do zagueiro Julio César Cáceres (com uma distensão muscular) e Santana (que terá de cumprir suspensão no duelo desse final de semana).

Quem também está bem encaminhado para a próxima copa é o Chile, comandado por Marcelo Bielsa, outro técnico argentino que faz bonito nessas eliminatórias. Precisando de apenas dois pontos para se garantir matematicamente, La Roja está próxima de retornar ao mundial, que não disputa desde 1998. Apesar da fama de jogadores como Maldonado (que sequer é convocado), David Pizarro (que abdicou de sua aposentadoria, mas continua sendo ignorado) e Valdivia (que costuma esquentar o banco na seleção), Bielsa tem apostado na coletividade, dando prioridade a jogadores menos renomados como Cereceda ou Beausejour. Entre os nomes mais conhecidos, destaque para Arturo Vidal (do Bayer Leverkusen), Mark González (CSKA Moscou), Alexis Sánchez (Udinese), além do artilheiro Humberto Suazo (que já anotou oito gols nessas eliminatórias). Já Isla, Gary Medel e Matías Fernández, outros jogadores importantes no versátil esquema chileno, ainda se recuperam de lesão e são dúvidas para os próximos compromissos. E como as últimas rodadas não foram muito boas para a equipe (que somou apenas um ponto nos dois últimos jogos), é bom o Chile não dar muita sopa para o azar, afinal encara colombianos e equatorianos, que ainda estão na briga.

O Equador é o 4º colocado com 23 pontos e definitivamente renasceu sob o comando de Sixto Vizuete. Após estrear em Copas do Mundo na edição de 2002, os equatorianos conseguiram chegar as oitavas do último mundial. Mesmo assim, começaram essas eliminatórias de forma decadente, quando chegaram a ocupar a lanterna, motivos que levaram os dirigentes a demitir o colombiano Luis Fernando Suárez. Desde então, a seleção voltou a jogar com regularidade, fato que também coincidiu com o afastamento de diversos convocados que não vinham rendendo o esperado (Urrutia, Bolaños e Guerrón, que atuam no futebol brasileiro, ilustram bem essa questão). Outro ponto importante foi o aproveitamento em casa, uma tradicional arma dos equatorianos que não vinha sendo devidamente aproveitada. Jogando na altitude de Quito, Vizuete se manteve invicto diante de fortes concorrentes como Brasil, Paraguai e Argentina (derrotada por 2x0), fator que contribuiu para a arrancada de La Tri e que pode culminar na 3º participação (consecutiva) em uma Copa do Mundo. Para isso será preciso fazer a lição de casa diante do Uruguai e se dar bem contra os chilenos na rodada final.

Quem também precisa fazer sua parte para chegar ao mundial é a Argentina, que está em situação delicada na tabela, na 5ª colocação com 22 pontos. Se as eliminatórias terminassem hoje, o time de Maradona estaria classificado ao menos para a repescagem, mas o problema é que pode chegar à última rodada brigando por um lugar contra os uruguaios (que nesse caso, levariam a vantagem de decidir em Montevidéu). Por isso, os argentinos não podem nem sonhar em se complicar (como aconteceu no 1º turno) diante do lanterna Peru, adversário na rodada do final de semana. Ainda mais porque os peruanos sequer vão contar com seus principais jogadores (os atacantes Guerrero, Farfán e Pizarro), dando a entender que a maior motivação para o duelo seria uma possível “mala-branca” da concorrência interessada no resultado. Pelos lados dos hermanos, Maradona realiza novas mudanças na esperança de resultados. Extremamente criticado pela imprensa especializada, inclusive a de seu país (algo que muito jornalista brasileiro duvidava, já que os “argentinos sabem respeitar seus ídolos”), o treinador deixou no ar a possibilidade de abandonar o comando da seleção mesmo classificando-se para Copa. Com a contusão de Zabaleta, a equipe fica sem um lateral-direito de ofício, o que deve obrigar o técnico a improvisar o canhoto Jonás Gutiérrez pelo setor. No meio, Aimar (que voltou a jogar bem no Benfica) foi escolhido como a solução para cobrir uma carência estabelecida desde o afastamento de Riquelme. E na frente, até o veterano Palermo tem sido cogitado, embora quem deva sair jogando é Híguain, em boa fase pelo Real Madrid. A torcida só espera que dessa vez, o conjunto comandado por “Don Diego” reaja positivamente às novas mudanças ou os Albicelestes correm sérios riscos de repetir o vexame de 1970, quando ficou de fora do mundial, eliminado por uma tal seleção peruana...

Correndo por fora estão Uruguai e Venezuela (ambos com 21 pontos), além da Colômbia (com 20). Teoricamente, a missão mais complicada é a dos venezuelanos, que têm evoluído notavelmente nos últimos anos, mas dificilmente chegarão à inédita classificação para uma fase final de Copa do Mundo em 2010. Isso porque os confrontos finais são contra os dois primeiros colocados da tabela: inicialmente o Paraguai em casa e posteriormente o Brasil (que tem tudo para escalar seus titulares em um jogo festivo) no campo do adversário. Mesmo assim, o país do meia Juan Arango (que afirmou ainda sonhar com esse “milagre”) assiste a uma abertura do mercado internacional para seus jogadores (vide os exemplos de Rosales, Fuenmayor, Tomás Rincón, Vargas, Fedor e Maldonado, todos atuando no futebol europeu), o que deve ser fundamental para adquirir a experiência necessária para prosperar em situações como essa. Aliado ao surgimento de novas promessas (como Jeffrén, do Barcelona, que atua pelas seleções de base espanhola, mas tem sido sondado para defender seu país de nascimento), o futebol venezuelano promete incomodar ainda mais. Quem sabe nos próximos anos...

O Uruguai insiste em se complicar, mesmo possuindo um grupo altamente qualificado para os padrões sul-americanos (ou alguém dúvida da capacidade de nomes como o defensor Lugano ou os atacantes Luis Suárez e Forlán?). Durante a campanha das eliminatórias, os Charrúas cometeram vacilos imperdoáveis para uma seleção que deseja chegar a Copa, como os empates em casa contra venezuelanos e equatorianos, concorrentes diretos a classificação. Bi-campeão mundial, a Celeste ficou fora de três os últimos cinco mundiais e agora corre sérios riscos de repetir sua sina, já que sua missão não será das mais simples: precisará mostrar serviço diante do Equador na altitude de Quito (até para não ser eliminada de forma precoce), além de superar uma desesperada Argentina na rodada final.

A Colômbia vive situação parecida desde o fim da geração liderada por Valderrama, Asprilla e Rincón, que participou das três copas disputadas na década de 90, mas desde então nunca mais conseguiu se classificar. A falta de renovação foi um fator determinante nessa sequência de insucessos e reflete-se na convocação do rodado arqueiro Óscar Córdoba (de 39 anos), que substituí o lesionado Agustín Julio nos duelos decisivos contra chilenos e paraguaios. Outros veteranos (como Yepes, Iván Córdoba e Giovanni Hernández) também fazem parte do grupo comandado por Eduardo Lara. Consciente dessa situação, o técnico tem apostado em jovens talentos como o goleiro Ospina; os defensores Zuñiga, Zapata e Armero; os meias Aguilar e Guarín; além dos atacantes Falcao García e Rodallega; todos com menos de 25 anos. Resta saber como as novas estrelas de Los Cafeteros irão reagir a esse desafio...

América do Norte, Central e Caribe (CONCACAF):

Sem dúvida alguma, as últimas rodadas na disputa pelas vagas da CONCACAF foram emocionantes e marcadas por diversas reviravoltas na tabela. Para se ter uma idéia, a Costa Rica, que liderava o certame, sofreu três derrotas que lhe deixaram na 4ª colocação (que representa a disputa da repescagem contra o 5º colocado da América do Sul). Os resultados ruins acabaram gerando a saída do técnico Rodrigo Kenton (com quem os Ticos tinham somado 12 dos 15 pontos possíveis no início do hexagonal final até entrar em declínio), substituído por Renê Simões (ex-Coritiba). Credenciado por ter levado a Jamaica ao mundial de 1998, resta saber se o brasileiro terá tempo de implementar sua filosofia de trabalho faltando duas rodadas para o fim da disputa. Para piorar, o experiente zagueiro Gilberto Martínez (jogador do Brescia), que havia solicitado a federação local o adiamento de sua apresentação a seleção para resolver problemas pessoais, foi flagrado em uma praia, sendo imediatamente desligado da convocação pelos dirigentes costa-riquenhos. Os defensores Roy Myrie e Seravalli, além do volante Celso Borges, todos contundidos, também constituem ausências importantes. Por outro lado, o veterano defensor Luis Marín (que esteve nos mundiais de 2002 e 2006) retorna a seleção contando com a confiança de Renê, que tem afirmado a imprensa do país que acredita na classificação para a Copa.

Um bom exemplo para se espelhar é a seleção do México, que colecionou fracassos sob o comando do sueco Sven-Göran Eriksson e parecia fadada ao fracasso ao somar apenas três pontos nas primeiras quatro partidas. O estopim foi a derrota para El Salvador (para quem os mexicanos não perdiam em eliminatórias desde 1993), que culminou com a demissão de Eriksson e a contratação providencial de Javier Aguirre. Velho conhecido do torcedor, El Vasco (apelido de Aguirre) tem reprisado o mesmo filme de 2002, quando assumiu La Tri em condições semelhantes e levou o país ao mundial com uma impressionante arrancada. Além de devolver a confiança aos atletas (principalmente após a conquista da última Copa Ouro), ele também reincorporou veteranos como Palencia e Blanco ao grupo, que com sua experiência, ajudam a amenizar a pressão sobre jogadores mais jovens, como Giovanni dos Santos (que voltou a jogar bem, mas ficou de fora da última convocação) ou Carlos Vela. Apostando em uma defesa compacta e um esquema ofensivo, os mexicanos ao menos têm feito valer o peso de sua camisa em âmbito continental, encostando-se à liderança da tabela.

Outra nação que merece grande destaque são os Estados Unidos, que desde o início do hexagonal final tem apresentado grande regularidade, ocupando atualmente o topo da tabela. Apostando em um time jovem, mas que já possui relativa rodagem internacional, os americanos tem feito um bom papel em torneios importantes, como por exemplo, a última Copa das Confederações, quando chegaram à final da disputa e quase surpreenderam o Brasil. Nessas eliminatórias, o treinador Bob Bradley já utilizou mais de 40 jogadores, descobrindo novas peças (caso dos atacantes Davies e Altidore) que com certeza estarão na África do Sul no ano que vem. A espinha dorsal do time é complementada por figurinhas carimbadas como o goleiro Tim Howard; os defensores Bocanegra, Cherundulo, Onyewu e Hedjuk; o meia Dempsey (que contundido, acabou cortado das rodadas finais dessas eliminatórias) ou o atacante Donovan.

Na luta por uma das vagas também estão Honduras (atualmente na 3ª posição com 15 pontos) e El Salvador (em 5º com 8), afastados da principal competição mundial desde a década de 80. Contando com uma das melhores gerações das últimas décadas, os hondurenhos fatalmente devem ficar entre os quatro primeiros colocados. Para isso, confiam na bagagem de atletas como os defensores Bernárdez e Figueroa; os meias León, Palácios e Thomas; os atacantes Costly e Suazo (todos atuando no futebol europeu), além de ídolos locais como o Guevara e Pavón. Já os salvadorenhos, que têm uma missão um pouco mais complicada, confiam no trabalho do treinador mexicano Carlos de los Cobos, que por sua vez aposta no talento ofensivo de nomes como o meia Quintanilla ou os atacantes Corrales e Zelaya. Trinidad e Tobago acabou pagando o preço por não renovar sua seleção, que com cinco pontos já está eliminada e agora precisará aprender a sobreviver sem os veteranos Dwight Yorke (37 anos), Stern John (que tem 32) e Latapy (que aos 41 anos, também acumula o cargo de treinador). Talvez seja uma boa hora para pensar em 2014 e abrir os olhos para revelações como o meia Keon Daniel ou o atacante Kenwyne Jones.

Nos duelos que definem as eliminatórias da CONCACAF, as perspectivas mais otimistas ficam por conta dos mexicanos, que tem boas chances de confirmar sua ascensão e terminar na liderança nos duelos contra El Salvador (em seus domínios), além da lanterna Trinidad e Tobago (na casa do adversário). Se conseguir alguma coisa contra o México, os salvadorenhos irão contar com a vantagem de definir sua situação jogando contra Honduras em San Salvador. Para não correrem riscos, os hondurenhos precisam se garantir no duelo contra os americanos (que acontece em San Pedro Sula em meio à crise política que assola o país), assim como a Costa Rica precisará superar em casa os trinitinos. Dessa forma, ambas as nações não poderiam mais ser alcançadas por El Salvador, disputando na última rodada apenas a vaga direta ao mundial (ou a repescagem). E nesse caso a vantagem seria de Honduras, que enfrentaria os salvadorenhos desmotivados pela eliminação, ao contrário dos costa-riquenhos, que terão de encarar os Estados Unidos jogando em casa e brigando pela liderança da chave.

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