Os próximos dias serão decisivos para a definição das nações que complementarão o quadro de participantes da próxima Copa do Mundo. Além do país sede, apenas Austrália, Japão, Holanda, Gana, Inglaterra, Espanha, Paraguai, ambas as Coréias (do Sul e do Norte) e o Brasil já estão garantidos na disputa. Das 21 vagas restantes, pelo menos 15 serão conhecidas nessa rodada, restando posteriormente apenas o desespero das repescagens... Vale à pena revisar o que foi apresentado até aqui para traçar um panorama consciente sobre as possibilidades de cada nação postulante a um lugar ao sol na África do Sul em 2010:
África (CAF):
A disputa no continente africano já apresenta algumas certezas, mas
também reserva grandes emoções para as rodadas finais. Gana já garantiu sua vaga no Grupo D, mantendo 100% de aproveitamento em suas quatro partidas (sem sofrer sequer um gol!) e agora apenas cumpre tabela contra Benin e Mali (que irá contar com o reforço de Mahamadou Diarra, volante do Real Madrid, afastado a 11 meses da seleção devido a uma grave contusão no joelho). O grande mérito dos ganeses (além de ressuscitar a camisa amarela, agora como 3º uniforme) foi a manutenção da base que chegou as oitavas de final do último mundial (onde figuram estrelas como Muntari, Essien e Appiah) mesclada a novos talentos que começam a se firmar no cenário internacional, como por exemplo, o versátil Tony Annan, volante do Rosenborg (da Noruega), chamado de “novo Makalele”. E se já não têm mais chances de chegar a Copa do Mundo, Mali (com cinco pontos) e Benin (que tem quatro) ao menos lutam pelo 2º lugar da chave, suficiente para garantir um lugar na próxima Copa Africana de Nações. O Sudão, que soma apenas um ponto e joga contra ambas as seleções, tem poucas chances. Atualmente em vantagem na tabela, Kanouté e sua trupe levam a desvantagem de jogar contra os líderes da chave fora de casa, enquanto o Benin, uma das gratas surpresas da fase final africana, fará esse duelo em seus domínios. Resta saber se a base onde se destacam nomes que atuam no futebol francês (como o defensor Chrysostome, o meia Sessegnon e o atacante Omotoyossi) não vai sentir o peso dessa responsabilidade...
No Grupo E, a Costa do Marfim também está praticamente garantida, somando 12 pontos (o dobro
do 2º colocado) e precisando de apenas mais um nos dois duelos restantes para confirmar sua vaga. Algo que não deve representar muitos problemas para o melhor ataque das eliminatórias africanas (com 12 gols somados) e que enfrenta justamente as seleções de Guiné e Malauí, ambas já eliminadas. Uma grande oportunidade para Drogba (artilheiro do certame continental com cinco gols em quatro partidas) e companhia confirmarem o rótulo de geração dourada do futebol marfinense com sua 2ª participação (consecutiva) em um mundial. Restará a Burkina Faso, que jogou o fino da bola, mas deu azar de cair na chave de uma das maiores potências da CAF (senão a maior) na atualidade, lutar por uma vaga na Copa Africana das Nações, que representaria mais uma chance para a equipe do meia Pitroipa (que joga no Hamburgo) e do matador Dagano (ídolo no país) demonstrar todo seu potencial. Com seis pontos, os burquinenses contam com a vantagem de realizar confrontos diretos contra Guiné e Malauí, que somam apenas três e ainda enfrentam o grande favorito do grupo.
Nas demais chaves, tudo ainda está em aberto. No Grupo A, por exemplo, todos ainda possuem chances de chegar ao mundial. A grande surpresa é o Gabão, que sob o comando do francês Alain Giresse aposta em uma equipe renovada, deixando um pouco de lado figurões como Daniel Cousin (do Hull City) para dar oportunidades a novos talentos, como o meia Stéphane Nguéma (do PSG) ou o atacante Roguy Méyé (do Ankaraspor). Após uma arrancada no início dessa fase final, quando chegaram a liderar seu grupo, os gabonenses acabaram esbarrando na experiência dos camaroneses, algozes nas duas últimas partidas. Os pontos perdidos não apenas ressuscitaram o adversário, como também deixaram o Gabão em uma situação delicada, já que não depende mais apenas de si para se classificar a Copa. Porém, se garantirem o
passaporte para sua 4ª Copa Africana de Nações (atualmente estão na 2º colocação com seis pontos) nas duas partidas restantes (contra adversários tradicionais como Marrocos e Togo), os gaboneses já podem dar-se por satisfeitos. Na liderança da chave, Camarões seguiu o caminho contrário: após um início irregular, os Leões Indomáveis finalmente mostraram serviço nos dois últimos jogos, quando somaram seis de seus sete pontos. Contribuiu para isso o excelente trabalho de outro técnico francês, Paul Le Guen, que assumiu o time em cima da hora, após as saídas do alemão Otto Pfister (que levou Togo ao último mundial) e do interino Thomas N’kono (ex-goleiro que foi titular na excelente campanha do Mundial de 1990). Tal atitude foi questionada por grande parte da imprensa especializada, inclusive a brasileira. Muitos alegavam que os dirigentes camaroneses eram amadores ou que Le Guen não sabia “o problema em que estava se metendo”. Porém, com muita personalidade, o treinador devolveu a confiança ao seu grupo, mantendo a mesma base que não vinha dando resultados, embora tenha realizado algumas mudanças (a transferência da braçadeira de capitão do experiente zagueiro Rigobert Song para a estrela Samuel Eto’o foi a mais clara delas). Resta saber se contra togoleses e marroquinos (contra quem somaram apenas um ponto até aqui), os camaroneses confirmarão sua ascensão ou se irão repetir o vacilo de 2006, quando ficaram de fora da Copa na última rodada das eliminatórias. A oscilante seleção do Togo (que quase ficou de fora da fase final) e o decepcionante Marrocos (que ainda não venceu nessa chave), possuem respectivamente cinco e três pontos, mas contam com o trunfo (ou o fardo) de enfrentar diretamente os primeiros colocados para reverterem sua situação. Porém, para isso será preciso muito mais do que o talento dos artilheiros Adebayor e Chamakh...
No Grupo B, a briga parece centrada em duas potências do continente: Tunísia e Nigéria. Nesse sentido, os tunisianos levam a vantagem de estar na frente com oito pontos, enquanto os rivais somam apenas seis.
Após encontrar dificuldades na fase anterior (quando ficou atrás de Burkina Faso e classificou-se como melhor 3ª colocada), a Tunísia finalmente se acertou nessa fase final. Depois de utilizar 40 jogadores, o português Humberto Coelho parece ter encontrado a base ideal, onde brilha o atacante Issam Jemâa (que atua no Lens), mas o ídolo local Selim Benachour (que causou polêmica no país ao ficar de fora da Copa de 2006) continua sendo ignorado. Os nigerianos acabaram seguindo o caminho contrário, já que realizaram a melhor campanha da fase classificatória e acabaram decaindo justamente na “hora H”. Os confrontos diretos contra os tunisianos seriam decisivos para as pretensões dos comandados de Shaibu Amodu e após fazer sua parte jogando fora de casa (empate em 0x0), a Nigéria acabou vacilando justamente diante de sua torcida (quando empatou novamente, dessa vez por 2x2 e sofrendo um gol nos minutos finais do confronto). Quem pode acabar influenciando em uma possível reviravolta são Moçambique (3º colocado com quatro pontos) e Quênia (que com um ponto a menos, ocupa a lanterna do grupo), adversários dos favoritos nos duelos finais. Nesse sentido, os nigerianos precisam somar os seis pontos que irão disputar e ter fé para que a Tunísia se complique em um de seus duelos. E não convém desacreditar, afinal os moçambicanos (que encaram os tunisianos em seus domínios) já conseguiram arrancar um empate (0x0) contra a Nigéria no duelo inaugural dessa fase final.
Finalizando nossa revisão pelo continente africano, chegamos ao Grupo C, onde a Argélia tem grandes perspectivas de retornar a uma Copa do
Mundo (de onde está afastada desde 1986). Comandados pelo experiente Rabah Saâdane (que já comandou a seleção em outras cinco oportunidades, inclusive na última vez em que o país esteve em um mundial), as Raposas do Deserto ainda estão invictas nessa fase final e somam três pontos a mais que o Egito, segundo colocado. Se fizer a lição de casa contra Ruanda (lanterna do grupo e já eliminada) e contar com um tropeço dos egípcios (que tem uma partida complicada contra Zâmbia) na próxima rodada, os argelinos podem garantir sua classificação com uma partida de antecedência. Apoiados em um sólido sistema defensivo, onde figuram nomes como Bougherra (que atua no Glasgow Rangers), Yahia (do Bochum) e Belhadj (atualmente no Portsmouth); um meio-campo experimentado (destaque para o Ziani e o capitão Mansouri, que jogam no futebol francês); além de um ataque que mescla a rodagem do artilheiro Saïfi, com o ímpeto de revelações como Ghezzal (do Siena), Ghilas (do Hull City) e Djebbour (do AEK); a Argélia também conta com a sina do Egito, que insiste em desapontar seus torcedores quando o assunto é Copa do Mundo. Uma das grandes forças do futebol africano (basta ressaltar que os Faraós são atualmente bicampeões continentais), os egípcios não disputam um mundial desde 1990. De lá para cá, colecionaram seguidos fracassos em termos de eliminatórias, mesmo possuindo elencos qualificados para prosperar nesse sentido. A participação do país na Copa das Confederações desse ano sintetiza bem essa realidade: após endurecer contra o Brasil na estréia e conquistar uma histórica vitória contra os italianos, a seleção tinha tudo para chegar às semifinais do torneio, mas conseguiu a proeza de perder para os Estados Unidos por 3x0 na última rodada, desperdiçando uma chance de ouro de terminar entre os quatro primeiros colocados. E mesmo contando com atletas tarimbados, como o goleiro El-Hadary, os meias Ahmed Hassan e Aboutrika, além do atacante Amr Zaki, fica difícil entender os critérios do treinador Hassan Shehata que insiste em deixar de fora das convocações jogadores como Mohamed Zidan e Mido (com quem já teve tempo suficiente para superar os atritos do passado). Para chegar à redenção, primeiro será preciso passar pela Zâmbia jogando fora de casa. Após um início convincente, onde faturou inclusive um empate contra o Egito na casa do rival, os zambianos complicaram-se diante dos argelinos nas duas últimas rodadas, quando sofreram consecutivas derrotas. Mesmo assim ainda possuem chances matemáticas de lutar por uma vaga no mundial ou no torneio continental (objetivo mais realista), um fator motivante para o duelo contra os Faraós. Caso superem essa pedreira, os egípcios decidem a vaga em casa contra a Argélia, porém ainda em desvantagem em critérios de desempate como saldo de gols ou confronto direto...
Ásia (AFC) x Oceania (OFC):
Após uma classificação heróica diante da favorita Arábia Saudita, a
seleção do Bahrein tem mais uma chance de obter a inédita classificação para o mundial. Na última Copa, eles acabaram fracassando na repescagem diante de Trinidad e Tobago (então 4ª colocada da CONCACAF) de maneira trágica, perdendo em casa após conseguir um empate na casa do adversário. Porém, essa lição parece ter sido assimilada pelos comandados do tcheco Milan Máčala, que na partida contra os árabes precisavam de um empate com gols para se garantir e seguravam o 1x1 até o desempate do rival nos acréscimos do 2º tempo. Sem se entregar, os bareinitas foram em busca de um novo empate logo na sequência, eliminando o adversário (que jogava em seus domínios) de maneira heróica.
Agora o desafio é superar a Nova Zelândia, que já está classificada
desde novembro do ano passado, quando conquistou o título continental sem maiores dificuldades, sete pontos a frente do 2º colocado. De fato, a debandada da Austrália para a Federação Asiática contribuiu e muito para a supremacia absoluta dos neozelandeses, que agora não possuem mais nenhum concorrente a altura pelos lados da Oceania. Em busca de uma vaga na Copa que não ocorre desde 1982, o técnico Ricki Herbert (que era defensor da seleção naquela ocasião) vem preparando sua equipe desde então para esse grande desafio. Na Copa das Confederações desse ano, ele aproveitou para dar chance a diversos jogadores com o intuito de fornecer maior rodagem internacional a seus comandados. Porém, algumas medidas soaram um pouco incoerentes, como o fato do goleiro Paston (titular durante toda campanha das eliminatórias) ter ficado no banco de Glen Moss (que acabou nem sendo convocado para a primeira partida decisiva da repescagem). A base do time se concentra no defensor Ryan Nelsen (capitão dos All Whites), nos meias Tim Brown e Simon Elliott, além dos atacantes Killen e Smeltz.
Por outro lado, o Bahrein se caracteriza por um estilo de jogo mais amarrado, valorizando demais o setor defensivo e apostando suas fichas na inspiração de seus poucos atacantes para prosperar nos contra-ataques. Nesse sentido, chama a atenção o futebol de alguns atletas africanos naturalizados pelo país, como os meias Abdullah Omar (nascido no Chade) e Abdulla Baba Fatadi, além do atacante Jaycee John Okwunwanne (ambos nigerianos). Entre os atletas nascidos em solo bareinita, as grandes estrelas são o ofensivo lateral Salman Isa, Mohamed Salmeen (experiente camisa 10 que é o cérebro do time e portador da braçadeira de capitão) e o matador Ala’a Hubail. O fato de realizar a primeira partida em casa coloca a responsabilidade da vitória sobre os ombros dos asiáticos, embora fique difícil prever qualquer resultado, em se tratando de duas escolas totalmente diferentes. Mas vale destacar que talvez a Nova Zelândia, que tem como grande referência o estilo de jogo britânico, se adapte melhor a arbitragem do húngaro Viktor Kassai, escalado para apitar o confronto.