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A dança das cadeiras
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Por Victorino Netto

Fique por dentro de tudo o que acontece no cenário futebolístico mundial sob a ótica crítica e informativa do jornalista assisense Victorino Netto.
 
A dança das cadeiras | 20/07/2009 - 13:34

Primeiro foi Geninho, que deixou o Atlético-PR após cinco rodadas do Brasileirão, vitimado pelo péssimo início do Furacão na competição. Em seu lugar, assumiu Waldemar Lemos, que abandonou o Náutico em meio ao início promissor do Timbu no torneio. Na sequência, Nelsinho Baptista, desgastado pela eliminação na Libertadores e a zona de rebaixamento no Nacional, também deu adeus ao Sport, que teve de renegociar suas dívidas (consequentes de antigas demissões) com Émerson Leão  para garantir um substituto à altura. Marcelo Rospide também é um caso emblemático. Após a demissão de Celso Roth no comando gremista, ainda no 1º semestre, o interino acabou parcialmente efetivado, mantendo a base de seu antecessor e também a boa campanha na Libertadores (que culminou com a melhor campanha da 1ª fase). Porém, a diretoria do clube nunca escondeu o desejo de contar com alguém mais renomado para o cargo e por isso arrastou uma longa negociação com sua “menina dos olhos”: Paulo Autuori (até então lucrando em petrodólares no futebol do Catar), que acabou sucumbindo diante do Cruzeiro nas semifinais da Libertadores e ainda sofre no Brasileirão para que seu elenco assimile sem tantos efeitos colaterais a transição entre o 3-5-2 (imposto há algum tempo pelos lados do Olímpico) para o 4-4-2 (formação predileta do atual comandante).

O atual tricampeão brasileiro, Muricy Ramalho, já não teve a mesma sorte e com o quarto fracasso consecutivo no principal torneio interclubes sul-americano (eterna prioridade Tricolor) e um aparente desgaste com o elenco, acabou passando o boné para o “europeu” Ricardo Gomes. De fato, a experiência do ex-zagueiro da seleção como treinador no futebol francês preenche aos requisitos básicos exigidos pelos lados do Morumbi, que adora tudo que julga “moderno e diferenciado”. Mesmo que o maior feito de Gomes tenha sido levar o modesto Juventude a 4ª colocação do Brasileirão 2002 (fracassando no comando de uma das gerações mais promissoras do Brasil, que em 2004 ficou fora dos Jogos Olímpicos, além de ter consciência desde meados da última temporada que o Mônaco, seu ex-clube, não renovaria seu contrato). Nesse sentido, não surpreende que o técnico ainda esteja perdido entre o revezamento de suas “estrelas oscilantes”, que ainda bradam contra seu ex-treinador ao invés de mostrar futebol...

No Palmeiras, não era segredo para ninguém que Vanderlei Luxemburgo era um relativo prejuízo levando-se em conta a relação custo/benefício. Porém, o custo de sua multa rescisória era um prejuízo concreto, que não se esperava ser assumido pelo presidente Belluzzo em meio a essa temporada. Ainda mais com a animadora proximidade do final de contrato do antigo treinador, que botou a boca no mundo quando Keirrison iniciou as negociações com o futebol espanhol e anunciou sua saída via Twitter, talvez na expectativa de superar o ibope do rival Mano Menezes, líder de audiência (ou seguidores) nessa nova febre da comunicação advinda da internet. Animado com a situação, o presidente palmeirense também esperava anunciar o ex-técnico do seu vizinho de CT dessa maneira, mas viu frustrada sua intenção quando Muricy demonstrou ser tão turrão em relação às questões salariais quanto aparenta ser em suas entrevistas coletivas. O jeito foi confiar no interino Jorginho, que no “papo de boleiro” soube valorizar seu grupo, acomodando às peças que têm em mãos nas funções que mais lhe convém. Não por acaso, o “upgrade” palmeirense rendeu afirmação no G-4 e boatos (confirmados e desmentidos por Belluzzo) de que seria efetivado... Aliás, diga-se de passagem, ainda pode.

Na última semana, após campanhas irregulares e resultados frustrantes, quem acabou sentindo os efeitos de uma das práticas mais comuns da cultura que permeia o futebol tupiniquim foram Carlos Alberto Parreira e Vágner Mancini. O tetracampeão mundial de 94 na verdade pagou o preço por dirigir um time que ao definir o planejamento para a atual temporada preocupou-se mais em contratar jogadores dos rivais locais para fazer “fusquinha” do que suprir suas reais necessidades, como a evidente carência pelas laterais do campo (reflexos que também são sentidos pelo “tampão” Vinícius Eutrópio). Já Mancini, que nos bons tempos do Paulista de Jundiaí era chamado de “Highlander”, até conseguiu resultados satisfatórios no início de seu trabalho na Baixada, quando preteriu medalhões recém-adquiridos para privilegiar a garotada e os nomes menos badalados de seu elenco (uma prática que costuma surtir efeito pelos lados da Vila Belmiro). O problema foi quando começou o Brasileirão e a segunda leva também parou de jogar. Hoje em dia, Lúcio Flávio voltou a ditar o ritmo no meio-campo do Botafogo, Bolaños estreou marcando um “hat-trick” pelo Colorado, enquanto Neymar amarga o banco de reservas santista...

O que mais chama a atenção em todos esses casos é a lista de “treinadores-substitutos” que se especula quando mais um técnico perde o emprego no Brasil, normalmente focada nos mesmos nomes, que por acaso estão dando sopa no mercado por enfrentarem essa mesma realidade instável para trabalhar em nosso país. Muricy Ramalho, por exemplo, foi cotado no Palmeiras e posteriormente no Santos e no Fluminense. Isso sem falar na constante especulação de que poderia retornar aos pampas para assumir o Inter, onde Tite também balança (mesmo que os dirigentes colorados jurem o contrário). Luxemburgo também só não está nessa lista do Flu (que também inclui o velho conhecido Renato Gaúcho), porque dias depois de sair do Palestra Itália já tinha um emprego garantido no Peixe. E não seria surpresa se Parreira (que mantém boa relação com a Traffic) ou Mancini fossem especulados no Verdão (onde até Dorival Júnior foi cotado), caso o momento palmeirense não fosse tão animador com Jorginho. Geninho também assumiu recentemente o lugar de Márcio Bittencourt no Náutico, que por sua vez, tinha sido contratado para o lugar de Waldemar Lemos (exatamente o sucessor de Geninho no Furacão).

Essa “dança das cadeiras” apenas ilustra o que nossos dirigentes insistem em ignorar: o mercado nacional não tem opções de reposição, o que evidencia a falta de reciclagem e renovação (até por falta de oportunidades) nessa função, assim como o fato de que demitir um treinador no Brasil atualmente (ou desde sempre) é certeza de efetivação de um interino sem experiência ou a contratação de alguém que já “pagou o pato” durante a temporada. Vejamos até o final do ano mais quantos treinadores entrarão nessa dança e quanta renovação será obtida desse processo, que já se tornou prática na realidade nacional...

PS: Esse texto era finalizado em meio à 12ª rodada do Brasileirão, enquanto o Inter perdia o Grenal no Olímpico e o Avaí ainda iria enfrentar o Sport em Recife. Portanto se ao ler esse texto, Tite (que no início dessa temporada era exaltado como o treinador diferenciado no comando do “Rolo Compressor” que faturou o estadual) ou Silas (estrategista responsável por levar o Leão de volta a 1ª divisão e quebrar o tabu de 12 anos sem título estadual), os dois últimos candidatos a "bola da vez",  já tiverem perdido seus empregos, peço sinceras desculpas aos leitores. Sabem como é... Falar de treinador no Brasil é correr o risco de estar desatualizado!!!

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