O mês de março acabou, mas alguns “causos” que o futebol nacional nos contou durante essa passagem não podem passar em branco...
Alguns fatos merecem ser repensados por todos nós, até p/ que não caíam no esquecimento após uma superexposição da mídia especializada...
Unificação dos títulos nacionais:
Essa é boa... Santos, Palmeiras, Bahia, Fluminense, Cruzeiro e Botafogo apresentam um projeto de unificação dos títulos brasileiros a partir de 1959. O objetivo é fazer com que a CBF reconheça que os campeões da Taça Brasil (disputada entre 1959 e 1968) e da Taça de Prata (o “Robertão”, disputado entre 1967 e 70) sejam reconhecidos como campeões brasileiros. O principal argumento dos clubes é de que ambos os campeonatos reuniam times de todo o Brasil e davam aos campeões vaga na Taça Libertadores.
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É claro que a medida gera polêmica entre aqueles que são a favor da medida (em sua maioria, simpatizantes dessas agremiações) e os que são totalmente contra (grande parte das torcidas rivais), fazendo também com que muitos especialistas divaguem sobre o tema. A maioria alega que o a Taça Brasil, na verdade era um torneio eliminatório e que alguns clubes precisavam de poucos jogos para se sagrar campeões, já que entravam direto nas semifinais. Estes alegam que o torneio seria no máximo, “o embrião” da Copa do Brasil, enquanto o Torneio Roberto Gomes Pedrosa, com uma forma mais elaborada, reunia poucos times fora do eixo RJ-SP (participavam também algumas equipes mineiras, do sul e um ou outro nordestino).
A verdade é que atitudes como essa são apenas uma justificativa p/ tentar glorificar um pouco mais a obscura realidade enfrentada pelas equipes envolvidas, todas afastadas dos grandes títulos nacionais já há algum tempo (os últimos a ganhar um Brasileirão foram Cruzeiro e Santos, respectivamente em 2003 e 2004). Palmeiras e Fluminense, inclusive, caem na ridícula situação de pleitear mais um título no “tapetão”, já que no ano passado contavam com o reconhecimento da Copa Rio como “título mundial”, o que acabou não acontecendo.
O pedido de unificação desses títulos é na verdade um desrespeito a história do futebol nacional, que até 1971 não tinha um Campeonato Brasileiro de verdade, já que era centrado nas competições regionais. Além disso, qualquer um que tenha mínimo interesse nas tradições brasileiras sabe que a Taça Brasil e o Torneio Roberto Gomes Pedrosa podem ser considerados sim conquistas nacionais (tanto que sempre constaram no currículo de quem as possui), embora não sejam o “Campeonato Brasileiro” que os clubes interessados querem fazer parecer. Atitudes como essa apenas ajudam a desvalorizar a importância desses títulos e são um precedente p/ que o detentor de qualquer título de “futebol de botão” no Brasil se candidate a campeão mundial... Bons mesmo eram aqueles tempos de Taça Brasil ou de "Robertão", quando as coisas ainda eram decididas dentro de campo!!!
Roberto Fernandes e o vestido rosa:
Outro fato que deu o que falar... No dia 18 de março, uma quarta-feira, o treino do Figueirense em Florianópolis repercutiu em todo Brasil e pautou o assunto de muita gente por aí... Não pelo talento de algum jogador em especial ou alguma inovação tática proposta pelo treinador Roberto Fernandes. Na verdade o assunto eram as diversas manchetes que estampavam o “vestidinho rosa” usado pelo meia Jairo, supostamente uma “punição” por não ter ido bem no treino anterior, fato que chocou muita gente importante, como por exemplo, Vanderlei Luxemburgo e Cezar Britto (presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil), que classificaram a atitude como uma humilhação, condenando (mesmo que indiretamente) o treinador do clube catarinense!!!
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O que eles não sabiam, assim como toda a imprensa (que se preocupou primeiramente em polemizar tal situação ao invés de apurar os fatos), era que a tal punição na verdade não havia partido do técnico, mas na verdade do grupo de jogadores, que foi quem definiu o “castigo”. Com o passar dos dias é claro que todos na imprensa se esqueceram disso, talvez porque tal atitude é mesmo “coisa de boleiro”, mas provavelmente porque é mais fácil mudar de assunto do que assumir seus erros. Condenar a brincadeira seria um precedente p/ julgar tantas outras coisas comuns no universo do futebol, como as constantes “ovadas” distribuídas nos aniversariantes, tão comuns nos treinamentos de um país onde grande parte da população morre de fome ou então a “estupidez juvenil” como são punidos aqueles que perdem os rachões: boladas, “corredor-polonês”, puxão de orelha...
Porém, usar um vestido rosa, em um ambiente que ainda hoje se mantém extremamente conservador... Isso sim é humilhação!!! Como se em despedidas de solteiro ou no mês de fevereiro, diversos cidadãos que se esquecem da realidade e deixam-se embriagar com a alienação que toma conta do país, não se travestissem com perucas, maquiagem, saltos... E vestidos!!!
Mais uma vez a imprensa nacional, composta por diversos “covardes”, usa o nome de Roberto Fernandes (que muitos devem julgar mais um “Zé-Ninguém”) p/ se promover às custas do sensacionalismo barato (aliado ao moralismo utópico!!!). Assim como no episódio da “falta inteligente”, quando o treinador, que tirou (com méritos) duas vezes seguidas a limitada equipe do Náutico da zona de rebaixamento do Brasileirão e comandava um dos clubes menos faltosos da competição, apenas teve peito p/ falar o que todo mundo sabe... Basta ver como o São Paulo de Muricy Ramalho conquistou seu recente tricampeonato: na base de muita “falta inteligente”!!! Quando Felipão era apenas “mais um gaúcho” que foi gravado mandando os jogadores do Palmeiras “bater” nos corinthianos às vésperas de um clássico, ousou-se fazer a mesma coisa... Temos de levar em conta que talvez Roberto Fernandes não tenha a “sorte” de conquistar uma Copa do Mundo p/ se redimir!!!
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O (des)mando de campo do Furacão:
P/ fechar a conta, o Atlético Paranaense, se aproveitando da interpretação do artigo 9º do regulamento estadual (que só foi possível, diga-se de passagem, graças a um erro de digitação por parte da federação), ganhou no Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) o direito de mandar todos os seus jogos em casa no octogonal final do Campeonato Paranaense. A idéia era que os quatro primeiros da etapa anterior tivessem o direito de jogar quatro partidas em casa, mas com a medida, o calendário do torneio foi modificado e agora o Atlético jogará as sete partidas finais em casa, além de receber dois pontos-extras que o regulamento já previa.
É claro que os torcedores do Furacão adoraram a decisão e muitos consideraram correta a postura do clube, que fez valer seus direitos (leia-se: aproveitou-se da brecha p/ se favorecer). Porém, tal atitude vai contra o bom-senso desportivo, além de ferir o princípio do jogo, baseado no “Fair-Play”. Como definiu perfeitamente Lédio Carmona, “envergonhada, a Federação Paranaense chutou o balde e deu ao Coritiba, segundo colocado e um ponto-extra, o direito de jogar seis partidas em casa (...) e assim sucessivamente. Enfim, esqueceram o regulamento anterior e criaram outro, para remediar o casuísmo dos dirigentes rubro-negros”. E quem se deu mal nessa história foi o Paranavaí, classificado em 8º e que “democraticamente” vai disputar todas as partidas do octogonal atuando como visitante...
Fatos como esse quase me fazem cometer a heresia de pensar “que saudade dos tempos de Onaireves Moura”, mas Deus existe e a justiça poética se deu já na primeira rodada, quando o J.Malucelli foi até a Arena da Baixada e garantiu uma vitória por 2x1, deixando o Atlético em 4º lugar na tabela... Em uma realidade como a atual do futebol brasileiro, p/ seguir em frente, só mesmo tendo muita fé!!!
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Pessoal... Foi publicado na última quinta-feira (02/04) um texto do autor dessa coluna na seção “Conheça o Clube” da Revista Trivela, principal referência sobre futebol internacional no Brasil e um dos veículos mais respeitados do país quando se trata de jornalismo esportivo!!!
Se quiser conferir a matéria no site, clique aqui
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Juan Aurich: surpresa que vem de Chiclayo
Entre as equipes que têm chamando a atenção na atual temporada do futebol sul-americano, destaca-se El Ciclón del Norte, modesta agremiação da cidade de Chiclayo (Departamento de Lambayeque), que vêm desbancando os favoritos na liderança do Campeonato Peruano. O sucesso repentino desse alvirrubro de 86 anos é o maior incentivo para a indagação: Afinal, quem seria esse tal de Juan Aurich?
Um dos fazendeiros mais famosos do país, Juan Aurich Pastor sempre foi considerado um visionário por seu respeito à natureza e o cultivo de florestas em suas terras. Empresário e político de família tradicional, foi descrito pelo etnólogo Enrique Brüning como um “fino senhor”, além de ser fonte de inspiração para romance de Carlos Camino Calderón na obra “El Daño” (de 1973). Não por acaso, quando um grupo de trabalhadores da Fazenda Batangrande (de sua propriedade) resolveu fundar um clube que os representasse, o nome escolhido foi o do “patrão”. Tinha início em 3 setembro de 1922 a trajetória do Club Juan Aurich.
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O ingresso no futebol profissional e a estréia em Libertadores
Onze anos após sua fundação (em 1933), o time conseguiu sagrar-se Campeão de Chiclayo pela primeira vez, sob a batuta do treinador uruguaio Jorge Domenech. Em 1945, após um período de vacas magras, a equipe retirou-se da liga local retornando apenas em 1952 sob a presidência de Don Guillermo Aurich Bonilla, que procurou montar um time forte na expectativa de disputar os torneios de elite realizados naquela época. No ano seguinte o time protagonizou uma grande tragédia que marcaria o futebol peruano para sempre. Em 5 julho de 1953, na volta de um amistoso disputado em Trujillo, o ônibus que transportava a delegação do Juan Aurich invadiu uma linha férrea e foi atingido por um trem, causando um grave acidente que vitimou 22 pessoas, entre jogadores, familiares e torcedores.
Com o terceiro lugar na Copa Peru (divisão de acesso do país) de 1967, quando o grande destaque foi o atacante Daniel "El Chino" Ruiz (artilheiro dos nacionais de 56, 57 e 59), o time foi convidado a participar da elite peruana e já no ano seguinte conquistou uma surpreendente vice-colocação, quando terminou empatado em número de pontos com o Sporting Cristal, mas acabou derrotado no playoff decisivo por 2x1. Mesmo assim garantiu a classificação para a Libertadores da América de 1969, fato até então inédito para uma equipe de fora da capital. Em sua estréia em competições internacionais, o Juan Aurich acabou terminando na modesta 12ª colocação, mas deu trabalho aos rivais (Sporting Cristal, além dos chilenos Santiago Wanderers e Universidad Católica) na fase de grupos, quando terminou empatado com os demais adversários em número de pontos, fracassando posteriormente na disputa do playoff desempate (que na época era previsto pelo regulamento).
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O clube ainda conseguiria manter-se na elite peruana durante toda década 70, quando foi inaugurado o estádio Elías Aguirre, porém com campanhas oscilantes nunca mais repetiu o mesmo sucesso. Durante esse período, diversos ídolos do futebol peruano em final de carreira vestiram a camisa vermelha, entre eles Víctor Calatayud (que disputou a Copa de 66); Pedro León e Orlando de La Torre (que estiveram no mundial de 70); Juan Joya (bicampeão mundial com o Peñarol em 61 e 66) e Julio Meléndez Calderon (ídolo do Boca Juniors e campeão da Copa América de 1975 com a seleção peruana).
Em 1980, o atacante Pedro Aicart retornou do futebol espanhol (onde se sagrou campeão nacional com o Barcelona, além de passar por Hércules e Málaga) para comandar uma impressionante reação da equipe no Campeonato Peruano, quando o Juan Aurich arrancou da lanterna para uma honrosa 6ª colocação. Porém, com a penúltima colocação no nacional de 1983, El Ciclón del Norte chegou ao fundo do poço e acabou rebaixado.
Fusão e ressurgimento
Entre 1988 e 1991, o Juan Aurich limitou-se a participações em torneios regionais do Norte, sem obter grande sucesso. Em 1993, com o apoio da iniciativa privada e a idéia de voltar ao topo do futebol peruano, o clube decide fundir-se com o Deportivo Cañaña, time da província de Lambayeque, dando origem ao Club Aurich-Cañaña. Comandado por Horacio Baldesari, o clube recém-criado conquistou o título da Copa Peru em 1993, retornando a elite nacional onde permaneceria com campanhas irregulares até 1996.
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Após a queda, a fusão com o Deportivo Cañaña foi desfeita e o time voltou a pelejar na Copa Peru com sua nomenclatura original. Em 1997, mostrando força nas divisões inferiores, o clube obteve novo sucesso e mais uma vez garantiu seu retorno à Primeira Divisão. Porém, sem grandes investimentos, a equipe continuou limitando-se a participações discretas, resistindo bravamente durante cinco anos até o novo descenso em 2002. Durante esse período, as maiores estrelas a desfilar sua classe pelos lados de Chiclayo foram o meia Alfonso Yáñez (que disputou a Copa América de 1991) e o atacante Andrés Gonzáles (que passou pelo trio de gigantes do futebol peruano e teve uma passagem apagada pelo Real Betis em 1994). No ano seguinte o clube esboçou uma reação na fase regional da Copa Peru, mas acabou superado pelo seu conterrâneo Flamengo FBC. Enfrentando péssimas administrações e grave crise econômica, entrou em profundo declínio e para desespero de seus torcedores acabou desaparecendo lentamente do cenário esportivo local.
Essa situação começou a mudar em 2004, quando o Club Social Deportivo Mariscal Nieto, que participava da Primeira Divisão de Chiclayo, entrou em crise e ficou à deriva, sem dirigentes ou jogadores. Levando em consideração essa oportunidade, o então presidente Juan Merino Aurich utilizou sua influência para mobilizar os amigos mais íntimos e retomar suas tradições familiares, tornando o clube o “novo” Juan Aurich. Nascia assim, em 28 janeiro de 2005, o Club Social Deportivo y Cultural Juan Aurich de la Victoria, nome que deixava para trás qualquer problema jurídico enfrentado pela antiga agremiação.
Em 2007, El Manchester del Norte (como o time também é conhecido) conquistaria mais uma vez seu retorno a 1ª Divisão após vencer a dramática decisão da Copa Peru, contra o Sport Águila, nos pênaltis (5x3). De volta à elite, o Juan Aurich quase foi novamente rebaixado, salvando-se apenas no Playoff contra o Atlético Mineiro (da cidade de Matucana). Porém, na atual temporada tem surpreendido todo país com seu excelente desempenho e a liderança parcial do nacional. O nome mais respeitado do elenco comandado pelo técnico Franco Navarro (que disputou a Copa de 1982 e foi muito contestado enquanto diretor técnico da seleção nacional por seus atritos com Claudio Pizarro) é o do atacante argentino Sergio “El Checho” Ibarra, maior artilheiro na história do Campeonato Peruano com mais de 200 gols. A esperança dos torcedores é que dessa vez o Ciclón não bata novamente na trave e consiga manter por mais tempo sua boa fase...