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Um mundo sem preconceito nem discriminação
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Por José Benjamin de Lima

Advogado. Promotor de Justiça aposentado. Mestre em Direito. Aborda temas ligados ao Direito, com ênfase em questões de cidadania e da comunidade assisense.
 
Um mundo sem preconceito nem discriminação | 23/08/2010 - 22:57

É obra da civilização e da racionalidade reduzir ao mínimo tolerável a violência, o preconceito, a discriminação e a superstição, nas atividades e relações humanas. Ninguém, de sã consciência, defenderia a prevalência de tais desvalores.  Mas um mundo absolutamente isento deles seria um mundo humano?

O comportamento humano provavelmente nunca será inteiramente racional e escoimado de falsas concepções e maldades. O ser humano não é apenas uma somatória de bons sentimentos. Ao contrário, Impulsos agressivos e antissociais também fazem parte de todos nós e não há como ignorá-los. O homem não é anjo, nem animal, dizia Pascal. Pretendê-lo apenas anjo, reprimindo excessivamente seu outro lado, poderá produzir efeito contrário. Ou, na fala saborosa de Riobaldo, filósofo do Grande Sertão Veredas: “Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar”.

Nessa questão, o grande desafio para a humanidade tem sido encontrar mecanismos capazes de dar vazão à agressividade e aos impulsos negativos do ser humano, mantendo-os em padrões suportáveis e compatíveis com a vida civilizada. Forma inocente de descarregar agressividade, por exemplo, é torcer pela derrota e punição dos vilões, nas telenovelas. O filósofo inglês Bertrand Russel, pacifista convicto, dizia conseguir sublimar seus instintos agressivos lendo novelas policiais. Na atualidade, os jogos de videogame, muitos deles extremamente violentos, permitem ao jogador descarregar, simbolicamente, sua violência (ainda que seja essa sua única utilidade, já é alguma coisa...).

Mas acho que ainda não encontramos uma forma educada, política e polidamente correta, isenta de qualquer conteúdo vexatório, de inventar piadas protagonizadas por portugueses, negros, louras, gordos, carecas, baixinhos e similares. Ou de fazer caricaturas antideformantes. Ou de escrever textos humorísticos que não contenham nenhuma, absolutamente nenhuma referência às imperfeições humanas... Talvez cheguemos lá, um dia, depois de muito artista pagar, sem rir, pesadas indenizações por danos à imagem e à honra de pessoas que se julguem atingidas pelas brincadeiras... Mas em troca, quão sem graça, ascético, e asséptico será o mundo!

Lutar por uma humanidade cada vez menos violenta, discriminatória e preconceituosa, é tarefa meritória, sem nenhuma dúvida. Mas essa luta será contraproducente se não tiver como horizonte o equilíbrio entre o ideal e o real, entre as supostas conveniências sociais e a natureza humana. O excesso de repressão e controle não só mata a liberdade e a criatividade humanas; acaba fabricando monstros, pretendendo produzir anjos.

A busca infindável, e às vezes raivosa, do politicamente correto pode conter armadilhas insuspeitáveis. Machado de Assis, num de seus contos antológicos, intitulado “A Igreja do Diabo”, sustenta que as virtudes, assim como os vícios, têm suas fraquezas, seus rabos de palha (suas franjas, diz ele, em vernáculo polido). Quando nos devotamos excessivamente a um deles, acabamos puxados para o campo oposto: o exagero nas virtudes chama os vícios; o excesso nos vícios clama pelas virtudes. Assim é o ser humano. (jblima@femanet.com.br)

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