Entre tia e sobrinho
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Por Vicentônio Regis do Nascimento Silva

Crítico literário, contista, cronista e educador. Assina as colunas Ficções, publicada semanalmente no Oeste Notícias (Presidente Prudente-SP), e Perfil Literário na página Tiro de Letra (www.tirodeletra.com.br). Recebeu, entre outros prêmios literários, os da Academia de Letras de São João da Boa Vista (São João da Boa Vista-SP), concurso literário Felippe D?Oliveira (Santa Maria-RS) e Prêmio UFF de Literatura (Niterói-RJ).
 
Entre tia e sobrinho | 28/03/2008 - 01:14
Um interessante livro informa que as relações gregas entre mestres e discípulos se estendiam além das discussões filosóficas e espirituais. O homossexualismo, entre um homem maduro e um adolescente ou jovem, se mantinha tácito ou, em algumas situações, explícito, sem oposições ou iras. Toleráveis e toleradas as práticas extras entre professores e alunos. A relação entre time da maturidade e da juventude não perturbava a sociedade grega?
Assim como diversas condutas passaram por períodos cíclicos, alternando a aceitação e o menosprezo, o relacionamento sexual entre uma pessoa madura e outra mais jovem causou polêmica, revolta, balbúrdia, discursos inflamados contra o ato apavorante.
O ato apavorante provavelmente invadiu a mente e se tornou objeto de diversos escritores que viram, no conturbado desenrolar das liberdades individuais e sexuais, uma maneira de abordar a hipocrisia ou simplesmente de atacar a sociedade considerada puritana, descrevendo cenas mais íntimas protagonizadas entre os casais.
Os enredos mais ardentes deixaram de lado o romantismo, o sentimentalismo e a descrição prolixa de cenas platônicas para adentrar desvirginando os romances, repletos de narrativas eróticas, sensuais, lúbricas, deliciosamente voluptuosas.
Frise-se bem o limite que separa o erotismo da pornografia de modo que Lolita, provavelmente um dos romances eróticos mais comentados de todos os tempos, transforme-se em ícone das relações extemporâneas entre um homem maduro e uma adolescente em que sexo torrencial, obsessão e patologia se misturam e se evidenciam em detrimento das características amorosas.
Apesar do destaque alcançado pelo erotismo, ainda é possível um relacionamento romântico, sendo válidos desde os beijos roubados, a caminhada de mãos dadas pelas ruas e parques, o cinema e outros artifícios lançados no interessante jogo da conquista.
Os trejeitos de encanto são resgatados por Mario Vargas Llosa em “Tia Julia e o escrevinhador”, que sai em uma edição bem cuidada do selo Alfaguara, pertencente à Editora Objetiva.
Com pouco mais de trezentas e cinqüenta páginas, o livro traça o perfil de um jovem peruano, estudante de Direito e responsável pelos boletins jornalísticos de uma emissora de rádio que, depois de se firmar no centro da família e publicar um artigo num caderno literário, é apresentado com pompa a tia Julia.
Na verdade, Julia não é sua tia, mas cunhada de seu tio. A alcunha de tia aparece mais por formalidade do que por gosto. Bonita, separada, proveniente da Bolívia e passando algum tempo na capital peruana, Júlia é uma deslumbrante mulher de 32 anos que avassala pretendentes. Até mesmo o pseudo-sobrinho cai-lhe na tentação. Numa dança em um salão, rouba-lhe um beijo, apaixona-se e mantém um relacionamento sustentado pelo parco salário de radialista, complementado com trabalhos extras.
Afinal, aos 18 de anos de idade a maturidade não chegou. Os deslizes, entre eles freqüência em casa de espetáculos e restaurantes que compromete o bolso, são cometidos sem medo, preocupação ou mensuração dos estragos irreversíveis.
A paixão pela tia caminha ao lado do grande desejo: ser escritor. Em alguns fragmentos, num exercício interessante de metalinguagem onírica, o protagonista tenta convencer Julia a compartilhar de seus devaneios:
“Nos sentamos e ficamos conversando quase duas horas. Contei toda a minha vida, não a passada, mas a que teria no futuro, quando vivesse em Paris e fosse escritor. Disse que queria escrever desde que li Alexandre Dumas pela primeira vez e que, desde então, sonhava em viajar para a França e viver numa água-furtada, no bairro dos artistas, totalmente entregue à literatura, a coisa mais formidável do mundo. Contei que estudava Direito para agradar minha família, mas que a advocacia me parecia a mais chata e boba das profissões e que nunca a praticaria. Num momento, me dei conta de que estava falando de um jeito muito fogoso e lhe disse que era a primeira vez que confessava essas coisas tão íntimas não a um amigo, mas a uma mulher”. (p.88)
O interesse pela Literatura volta páginas adiante. Varguitas, o sobrinho, explica o processo de criação literária. Cortejada por um famigerado impotente, tia Julia confirma aos familiares a falta de vigor sexual de seu pretendente. Transcrito o enredo, o acadêmico precisa inserir algumas modificações para tornar o texto jovial, atraente, interessante e literário. Apesar das explicações, Julia apenas concebe que as modificações efetuadas prejudicaram a verdade, a forma e a finalidade do texto que, na “versão original”, tinha mais graça. Esse diálogo pode ser conferido nas páginas 122 e 123.
Outro recurso na estrutura da obra é a aparente interação entre ficção e realidade. Pedro Camacho, recluso autor, ator e diretor boliviano, trabalha numa rádio do grupo de Varguitas. O dramaturgo boliviano provavelmente é o modelo mais próximo de intelectual com quem Varguitas mantém contato, estreitando as relações durante os cafés tomados diariamente numa lanchonete. Durante a leitura, é possível se questionar se o enredo da obra não se mistura às histórias escritas pelo personagem Pedro Camacho para as novelas radiofônicas. A interação entre realidade e ficção da obra propiciaria a leveza do Fantástico?
Entre a adolescência e a juventude, a inexperiência e maturidade, o sonho e a realidade, a memória e a fantasia, a Literatura e a sobrevivência, Vargas Llosa abre um mundo de suavidade: o erotismo penetra, mas não se vulgariza, as amizades se dissipam, porém não se perdem, a paixão explode, entretanto não desmorona.

 









Tia Julia e o escrevinhador

Mario Vargas Llosa
Alfaguara – 360 p. – R$ 49,90


*Publicado originalmente no Jornal de Assis (Assis – SP) de 27 de março de 2008.
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